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Estratégia e táticas - uma história de conflitos - Daniel Schnaider

Estratégia e táticas - uma história de conflitos
por Daniel Schnaider

Vejo como um dos maiores responsáveis pelo fracasso de estratégias corporativas as “táticas” - muitas vezes podendo ser traduzidas por simples oportunismo. A empresa que tem como estratégica ser sustentável, por exemplo, tem esta forte voz que grita “atingir melhores resultados amanhã custe o que custar”. O problema é claro: existem várias formas de trazer retorno a curto ou médio prazo que estariam infringindo, ao menos um pouco, nestes e naqueles princípios estratégicos.


Todas as empresas que fazem investimentos em tecnologia da informação têm aumento imediato de custos. E pensando exclusivamente em “táticas” de curto e médio prazo, é possível afirmar que Indústrias farmacêuticas poderiam reduzir custos de pesquisa e desenvolvimento para melhorar as margens no curto prazo. Uma empresa de urbanismo poderia aumentar sua lucratividade se não seguisse princípios sustentáveis.  É como o vício em drogas: o viciado diz a si mesmo: “esta é a última vez”. Mas aquele ato se incorpora ao seu modo de agir e se torna quem você é. Na próxima vez, também será a última, e assim sucessivamente.


A situação se torna ainda mais complexa, por exemplo, se pensarmos no caso de vendedores, que tem metas de curto prazo, e que são bonificados por ações imediatas. O interesse desses indivíduos podem estar parcialmente em conflito com interesses estratégicos da empresa, comprometendo os resultados gerais. No artigo “A supremacia dos Valores” publicado em Janeiro de 2014 aqui no SCAI News, menciono que o estabelecimento de valores pode ser uma importante ferramente na batalha instrínseca entre estratégia e tática / curto e longo prazos.


Outro mecanismo importante a ser considerado é a governança corporativa - procedimentos internos que servem como mecanismo de monitoramento e controle da conduta dos funcionários e outros colaboradores.


Em um país como o Brasil, que viveu longas fases de instabilidade, o termo estratégia soa como peça de museu: é bonita de olhar, mas não gostaria dela minha casa. “Não vai servir”, você vai dizer. “Não combina”.  Entendo que alguém que esteja com fome deva suprir sua necessidade imediata. Mas isso é usado todo o tempo como desculpa para a falta de planejamento por empresas brasileiras. Muitas passam por momentos de glória, e mesmo assim se comportam como se o vento não pudesse mudar de direção.


Cínicos podem dizer que Michael Porter - um dos responsáveis pela migração da estratégia militar para o uso corporativo - nunca foi executivo de uma média ou grande corporação. Mas o fato é que a série de atividades a serem executadas, as pessoas a serem contratadas, os processos, procedimentos, prioridades, sistemas e metodologias a serem implantados serão significativamente distintos, caso a empresa escolha a sucessão familiar, profissionalização, venda para concorrente, fundo ou IPO dentro de outras possíveis estratégias.


É importante frisar que manter a situação da forma como está é uma decisão como qualquer outra citada acima. Ela terá um impacto profundo no valor da empresa para seus acionistas, funcionários e os clientes.


Muito interessante é o fato de empresas bem sucedidas terem estratégias bem definidas e executadas, monitoradas e controladas, não mudar a percepção dos táticos a migrarem para uma estratégia consolidada.


A meu ver, esse fenômeno de empresários e executivos que preferem a execução tática em seus negócios a um plano estratégico, é conhecida em psicologia como fobia (medo excessivo). O medo de aprender, não entender, de não saber aplicar, de “não ter controle” e de ser criticado por sócios, executivos, funcionários, fornecedores e clientes.


Não quero parecer “naïve”. Se sua estratégia é a expansão no mercado brasileiro e aparece uma oportunidade real, interessante, no Canadá, com algo extra pelo frio é claro, ela com certeza deve ser avaliada. Mas é o plano estratégico que dará os parâmetros do certo e do errado; do interessante para os outros e do interessante para você. Como na navegação de um barco a vela, ou o vento o levará a algum lugar aleatório bom ou ruim, ou você assume a responsabilidade e usa o vento (táticas) ao seu favor para atingir seu objetivo (estratégia).


Essencialmente, o medo de liderar, enfrentar, planejar e executar me parece ser uma tática inoportuna, e muito mais uma estratégia equivocada. Faça hoje, ou espere o vento que lhe agrade; será que ele chegará a tempo?


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