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Saindo da crise brasileira por Daniel Schnaider

Saindo da crise brasileira


O que um recuperador de empresas pode ensinar sobre a crise política econômica do Brasil


Existem alguns pré-requisitos para identificar se uma empresa em crise vale ser salva. O mercado que ela atua, os ativos disponíveis para venda, espaço para renegociação de dívida, a imagem e reputação frente a clientes, colaboradores e fornecedores, e acima de tudo a possibilidade de ter uma equipe preparada e motivada para enfrentar o desafio.


O nome do jogo, pelo menos na primeira fase, é ganhar tempo, como aquele primeiro respiro de quem esteve de baixo d'água por muito tempo e precisa se revigorar. O tempo na crise, é um palavra chave. As pessoas estão sem paciência, mais céticas e sem confiança. Os sintomas do medo se apoderam da massa e se sobrepõem ao racional lógico do ser humano. Ganhar tempo é fundamental para que as mudanças possam amadurecer e que surtam efeito.


A pergunta de um milhão de dólares é como reverter um quadro tão negativo. Entendo que a escolha do primeiro projeto é essencial para que o projeto da recuperação como um todo dê certo. Lembre que as pessoas não se tornaram pessimistas do dia para a noite. Elas tiveram as mais variadas razões para deixar de acreditar. O dever do recuperador é mostrar que ele é diferente, que ele faz o que fala, obtém resultado e segue adiante.


Este primeiro projeto pode ser a redução de custos ou venda de ativos, por exemplo. Em ambos os casos a redução pode ser usada para ganhar aquele folego necessário para aguentar mais um “round”. Se feito de forma rápida e eficiente elas tem o benefício de enviar um sinal positivo aos investidores que vem perdendo valor de seu bem, dos colaboradores e dos fornecedores que sem sua ajuda, tudo se torna mais complicado.


Entretanto,  se até agora, a fórmula para a mudança é tão trivial, o que impede mais empresários de realizá-la? Para responder a esta pergunta considere este exemplo: O número de soldados americanos mortos no Afeganistão e no Iraque entre 2001 e 2012 foi de 6.488. O número de mulheres americanas que foram assassinadas por parceiros ou ex-parceiros durante este período foi de 11.766. Isso é quase o dobro da quantidade de vítimas perdidas durante a guerra.

Esses assassinatos não aconteceram do dia para a noite. Houve com certeza inúmeros avisos, dias, semanas, meses e anos antes que poderiam demonstrar como esta estória acabaria. Deduzo desses milhares de casos que acontecem no mundo, todos os anos, que a mudança para o ser humano é extremamente difícil.


Para vencer a natureza humana que é adversa à mudança, você precisa de uma equipe especializada. Este seleto grupo de pessoas que por natureza, educação ou experiência reage diferente da grande maioria da população quando se depara com desafios, complexidade e medo. Este grupo seleto consegue ver o “sinal” diante a tanto “barulho”, é o grupo que enfrenta, empurra; que diante de uma porta fechada irá tentar entrar pela janela, e caso a janela tiver fechada, irá entrar pela garagem ou descobrir como se abre a porta sem chave e não descansará até que encontre uma solução; este são os lideres.


Lideres estão muitas vezes tão acostumados a tratar de crises, que eles muitas vezes esquecem que seus subordinados não tem essas “escamas” que os protegem das chamas. A comunicação ética e transparente é fundamental para manter os colaboradores e fornecedores alinhados e administrar sua angustias.


Então, o Brasil vale ser salvado? Acho que sobre isso, não há dúvida. Parece que apesar dos avanços não estamos nem perto do verdadeiro potencial deste país.


Um primeiro projeto de grande impacto seria colocar em ordem as contas públicas objetivando ganhar mais tempo e credibilidade a um novo governo, a fim de viabilizar mudanças mais estratégicas como a reforma política, tributária e trabalhista.


Para sair da crise e recuperar a confiança, o país terá que cortar na carne, reduzindo custos como faria qualquer empresa do setor privado. A redução da folha dos governos hoje de 11 milhões de funcionários, de um total de 90 milhões de pessoas trabalhando, irá com certeza doer, mas é necessário a fim de ganhar a confiança de investidores e retomar o crescimento.


A venda da ativos, concessões, PPPs e privatizações devem ser consideradas para aumentar a arrecadação e dar fôlego para as mudanças acontecerem. Este governo não teria a credibilidade necessária para fazê-lo. Novos refis devem ser lançado com urgência, permitindo ao setor produtivo aquele respiro para quem já nada ha alguns anos debaixo d’água.


De fato, o que precisamos agora é a equipe, e quando mais robusta e resiliente, mais rápido e melhor poderemos sair desta crise. Com isso digo, que uma equipe que se limite as mudanças necessárias no Ministério da Fazenda terá resultados mais limitantes do que uma equipe extensa, dentro dos ministérios da fazenda, planejamento, educação, saúde, infraestrutura, etc. Joaquim Levy era uma pessoa importante neste processo, mas não tinha apoio, influência ou legitimidade para conduzir as mudanças.


Junto com esta mudança, deve ser mudada a postura relativo a informações de órgãos públicos, dando total transparência a todas as informações, sem manipulações. O IBGE neste sentido tem que ser visto com um órgão estratégico fundamental para conduzir as mudanças necessárias no pais, pois sem informação precisa, não se pode tomar boas decisões. Por mais que a comunicação franca e continua é usada por adversários políticos, não existe outra forma de ganhar a confiança das empresas, investidores e a população.


Com um congresso onde 60% de seus membros estão sendo investigados por crime, longe não conseguiremos chegar. Mas o que precisamos é de um governo que ganhe tempo e credibilidade para dar ao cidadão a chance de fazer uma escolha mais sensata da próxima vez.  

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