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Qual é o mérito da meritocracia?

Qual é o mérito da meritocracia?

Daniel Schnaider


Meritocracia é um tema de conflitos. Por um lado pessoas não gostam de ser avaliadas, ter seu trabalho mensurado e criticado. Por outro, organizações que adotam a filosofia meritocrática tendem a ser mais eficientes comparado as outras que são influenciadas por poder, nepotismo e favores.


Mas a organização meritocratica está longe de ser perfeita. Estudos empíricos comprovam que “entidades meritocráticas” favorecem homem a mulheres, outro estudo mostra a tendência de dar ao mérito a quem ganha mais e não a quem foi mais produtivo, e finalmente o distanciamento das classes sociais no EUA – a sociedade que se honra pela cultura meritocratica, botam em cheque seu verdadeiro resultado.

 

Existem perguntas fundamentais ao questionar a validade do modelo mertitocrático. O que é bom e ruim? Quem julga o mérito é objetivo? O funcionário acredita no modelo?


O que é bom e ruim?

Parece uma pergunta obvia e simplista, mas veja este caso. E. Stanley O'Neal, CEO da Merrill Linch em 2007 era considerado um gênio, que trouxe o valor das ações da empresa a serem negociadas a $95 dólares.


A crise não tardou a chegar e o executivo foi demitido quando as ações estavam em $59. Neste caso, como em muitos bancos pelo mundo existia um problema com a forma de mensuração do mérito.


Muito valor era dado para resultados de curto prazo, o mérito por sua vez era dado para os mais irresponsáveis que conseguiam trazer resultados de curto prazo, mas estavam  comprometendo o futuro da empresa.


Máxima: Tenha objetivos de curto, médio e longo prazo bem definidos, e tenha conhecimento explicito do apetite de risco dos acionistas.


Quem julga o mérito é objetivo?

Nos projetos de diagnóstico da eficiência de firmas que realizamos encontramos o “melhor” da subjetividade corporativa.


Em uma multinacional encontramos um representante comercial que foi selecionado dentro de um programa específico para talentos. O profissional era fantástico, o melhor vendedor de sua equipe de 10 funcionários.


Porém o individuo recebia o menor bônus de sua equipe. Seu chefe dizia, “ele é capaz de muito mais...”. A verdade é que todos os outros profissionais tinham uma a três décadas de casa,  o relacionamento com o chefe era pessoal.  Nosso amigo estava sendo “passado para traz” e tinha perdido valores significativos em bonificações.


Máxima: Meritocracia não funciona quando a pessoalidade, subjetividade ou quando não há isonomia, moralidade, igualdade e legalidade.


O funcionário acredita no modelo?

Na universidade Haptuha em Israel, com aproximadamente 70.000 estudantes, existia um modelo meritocratico clássico. Os melhores professores ganhavam mais, bem mais. Como funcionava?


A mesma matéria era ensinada por vários professores. O aluno é que escolhia com que professor gostaria de estudar, com base nas avaliações dos estudantes dos anos anteriores.  Naturalmente aquele professor mais escolhido, ganhava mais de forma proporcional ao número de alunos escritos em seu curso.


O resultado foi a greve dos professores, uma vez que a maioria naturalmente não se destacava e ganhava bem menos.


Mas este é um caso atípico. Na maioria das empresas não haverá greve. Simplesmente funcionários desmotivados, insatisfeitos que reprimiram esses sentimentos.


Máxima: Se não houver confiança entre os gestores e os subordinados, o modelo meritocrático não funcionará.


Sumário

O modelo meritocrático não funciona por si só simplesmente porque pessoas não são maquinas deterministicas. É preciso criar um ambiente, cultura e dar as condições para que o individuo possa de fato progredir.


Em uma financeira no Rio de Janeiro, uma das principais gestoras começou como recepcionista e subiu na hierarquia por suas habilidades. Já em uma multinacional americana, uma secretária avançou rapidamente na piramide para cargos avançados por ter se casado com um dos diretores da filial. Essas estórias formam o núcleo do etos da entidade e definiram a camisa que cada individuo irá vestir - seja ela a da meritocracia ou não.



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