Imprensa‎ > ‎SCAINews‎ > ‎Dez2016‎ > ‎

Capitalismo 2.0 - Planeta, Pessoas e Lucro por Daniel Schnaider

Capitalismo 2.0

Planeta, Pessoas e Lucro

Os vícios do capitalismo são amplamentes conhecidos. A tragédia ambiental de Mariana, o acidente com o time do Chapecoense são exemplos recentes entre milhares de casos de empresas que para lucrar um pouco mais, vão ignorar a sociedade e o meio ambiente.


Não são sempre nomes até então pouco conhecidos envolvidos em escândalos. A Pfizer, empresa de remédios, das mais bem sucedidas do mundo, já foi multada por poluir o ar como também processada por realizar experimentos em humanos (na Nigéria) sem consentimento.  


O senador americano Bernie Sanders acusou a família Walton, a mais rica dos EUA, herdeiros do fundador da maior rede de supermercados do mundo, Walt-Mart, de manterem muito de seus funcionários abaixo da linha de pobreza, levando-os a utilizar programas sociais como vale-refeição e moradia sustentadas pelo pagador de impostos.


Para piorar o quadro poderíamos falar das petroleiras e empresas químicas somado a todas as terceirizações que empresas de países ricos realizam em países pobres para poder se beneficiar de mão de obra barata, da falta de regulação, leis e fiscalização.


Como foi possível aprender na última eleição americana, muitas pessoas não conseguem ver nem a parte positiva do capitalismo. O crescimento do PIB faz os ricos mais ricos, tecnologia serve para tomar os nossos trabalhos e meritocracia é apenas uma forma de nos iludir que temos alguma chance.


A pergunta neste cenário é se algumas regras do jogo podem ser mudadas para tornar o capitalismo mais sustentável. A resposta parece ser sim, mas com isso não sugiro que será rápido, fácil e sem inúmeros desafios no caminho.


O professor William Rees, da Universidade British Columbia, em Vancouver no Canadá, publicou em em 1992 um artigo chamado “Ecological footprints and appropriated carrying capacity: what urban economics leaves out”. O indicador de “footprint” ou capacidade, mostra quanto da natureza está sendo usado para sustentar a vida humana na terra. A Global Footprint Network, uma ONG estabelecida nos EUA, Suiça e Bélgica para calcular este índice, chegou a conclusão, depois de analisar os dados de 200 países, que para o ano de 2012 o mundo usou 1.6 vezes a capacidade da terra de renovar ou reciclar o seus próprios recursos.


Em 1994, o Inglês, John Brett Elkington criou o conceito chamado de Triple Bottom Line (TBL, 3BL). A lógica é que empresas não devem apenas apresentar a seus sócios e potenciais investidores relatórios sobre lucros mas também informações sobre o custo indireto a sociedade e ao meio ambiente.


Se a sociedade tem que pagar os custos, através do sistema de saúde diretamente, ou do pagador de impostos indiretamente para despoluir um Rio, não teria lógica apresentar apenas o lucro financeiro da firma.


O TBL tem seus críticos. Como se comportará as empresas em épocas de crise ou durante o período de longas recessões? Como será tratada a concorrência entre empresas que adotarem o sistema em relação a aquelas que não o fizeram? E por último, a dimensão do tempo. O que é bom para a sociedade em curto prazo, pode ter um impacto ambiental e social negativo no futuro, etc.


Mas, as críticas não impediram que Robert J. Rubinstein, Americano residente na Holanda, fundasse em 1996 o Triple Bottom Line Investment Group, que promove investimento, governança, treinamento e eventos em volta de um eco-capitalismo.


Em 2010, a  International Organization for Standardization, lançou o ISO 26.000, ou ISO de responsabilidade social. O desenvolvimento deste padrão levou 5 anos, e teve 500 participantes, incluindo representantes das indústrias, governo, ONG, sindicato dos trabalhadores, consumidores entre outros.


Enquanto empresas procuram modelos que se adequam a sua realidade, municípios estão criando suas próprias metodologias. Este o caso do Círculo da Sustentabilidade, que foi apresentado no Rio+20.



O mercado de startup e inovação vem procurando soluções para incentivar pessoas a mudar o mundo, sem a necessidade de intervenções do governo. Por exemplo a startup BUnited. Por um lado, é uma empresa de compras coletivas como várias outras que existem no mercado. Mas seu diferencial é sua exigência por alguma contrapartida social ou ecológica. Assim, os consumidores poderão pressionar as empresas a fazerem o bem, como uma pré-condição de se tornar clientes.   


As evidências do aquecimento global como a desigualdade social estão exigindo ações concretas e imediatas. Como disse, o ainda presidente Americano Barak Obama, “Um mundo em que 1% da humanidade controla tanta riqueza quanto os outros 99% nunca será estável”. Ainda não existe consenso sobre uma possível solução, também não existe garantia de sucesso para nenhuma dessas iniciativas, o que está claro é que as pessoas estão se mexendo, resta saber se há areia suficiente na ampulheta até a chegada do Capitalismo 2.0.   


Comments