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O funcionário cego, surdo e mudo por Daniel Schnaider

O funcionário cego, surdo e mudo


Eram simples eMails, porém “até” estava escrito “ate”, “incomodado” foi escrito “encomodado”. Na cozinha da empresa tinha “sebola” e não “cebola”. O argumento natural é que o autor deste artigo também faz muito erros em português, e faz mesmo, mas em sua defesa, 20 anos no exterior sem escrever ou ler na língua portuguesa. São inúmeras as justificativas dos funcionários, muitas delas compreensíveis, a final o pais tem um nível de educação precário, e na cultura brasileira herói é jogador de futebol e não quem estuda, mas nenhum argumento muda o fato: vivemos um caos de qualidade entre os profissionais brasileiros.


Muitas vezes me deparo com a situação de não poder pedir para auxiliares e assistentes conversarem com clientes por telefone por não saberem falar minimamente a língua portuguesa; ou leia-se minha inapetência por uma conversa na versão funk do português quando a empresa depende de seu consumidor.   


Há casos que são menos simples, como o caso do profissional de TI extremamente capaz com bacharelado em informática que não tinha conhecimento básico de estatística e probabilidade. Em sua visão, isso era um conhecimento desnecessário que não trazia benefício algum. O sistema que estávamos desenvolvendo era de crédito que usava é claro, estatística e probabilidade.


Para montar uma equipe de contabilidade em uma empresa com R$250 milhões em faturamento fizemos um simples teste durante o processo seletivo onde ninguém passou. Em outro caso, realizamos exames na área de recursos humanos onde apenas 4 de 750 candidatos passaram e para programadores onde das 15 empresas selecionadas nenhum funcionário conseguiu passar avaliações práticas.  


Podemos argumentar que o problema não é brasileiro, talvez seja um problema global, mas a realidade mostra algo diferente. Do ponto de vista teórico, o aluno brasileiro de 15 anos está no 57 lugar de 60 países que realizam o teste PISA. Em leitura ou ciência a situação não é melhor. Como isso impacta anos depois na vida profissional? Veja o caso a seguir.


Fomos solicitados para conduzir dois projetos idênticos em sua finalidade porém um deles ocorreria no Brasil e outro em Israel. No Brasil foram necessários 16 profissionais por dois anos para finalizar o projeto com menos qualidade (muito menos) do que os 3 profissionais Israelenses que o realizaram em 6 meses.


Estes exemplos, exames, projetos e experiências se estenderam para outras profissões como advogados, suprimentos, secretárias, financeiro, engenheiros, entre outros. De forma nenhuma estou sugerindo ou generalizado dizendo que não há bons profissionais no Brasil, apenas que está muito difícil encontrá-los.


Quantos profissionais, independente da área, continuam investindo no seu conhecimento depois que já tem estão trabalhando? Quantos deles sabem gerir pessoas, prioridades, tarefas, se comunicar bem em escrito ou oralmente?


Solução

Você não lê este blog pelas constatações dos fatos neles descritos, e sim pelas soluções por ele proposto. Sendo assim, algumas ideias, criativas ou não, que aplico em meus clientes com bastante sucesso.


Tudo começa por incentivar o funcionário a desenvolver capacidades autodidatas. Tem que diga que esta não é a função da empresa; neste caso não seria necessário seguir lendo o artigo, fazemos isso porque não temos escolha! O que a empresa precisa é de funcionários que sabem aprender sozinhos, estudar, “se virar”, pensar e executar; se a empresa não assumir está responsabilidade, ninguém o fará e o problema da qualidade dos profissionais persistirá.  


Hoje através de MOOC (Massive Online Courses), cursos universitários disponíveis gratuitamente (ou pagos) na web, inúmeras palestras  do Youtube, livros e artigos online, podemos montar o plano de desenvolvimento pessoal para cada funcionários, de cima para baixo, com o investimento do tempo do colaborador, internet, computador, mesa, cadeira e fone de ouvido.  


Em outras palavras temos que identificar o gap de conhecimento de cada funcionário, e criar um plano anual para que ele se torne a versão melhor de si mesmo. O funcionário que quer crescer pode estudar e se desenvolver também quando está fora do ambiente de trabalho. Depende principalmente da escolha dele.


Criamos salas de treinamentos em alguns de nossos clientes, e permitimos aos colaboradores estudar algumas horas por semana. Assim, eles podem estudar sem serem incomodados por telefones, eMails e colegas durante aquelas horas sagradas.


A lógica deste programa de treinamento é que o funcionário que se dedica 4 horas de estudos  por semana finaliza depois de 1 ano aproximadamente 200 horas de estudo. Isso equivale a 4 cursos acadêmicos. O funcionário que conseguir ser persistente pro 10 anos, terá o equivalente a 2 bacharelados básicos ou 1 bacharelado em ciência.


Recomendo também incluir o autodesenvolvimento como parte do plano de meritocracia para que o bônus ou prêmio esteja vinculado parcialmente ao aprender novas habilidades e competências.  Sendo assim, depois de algum tempo, para o enorme benefício de sua empresa, esses funcionários vão conseguir  escutar, ver e até falar.

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