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Entrevista com Emerson de Mello especialista em governança e compliance


O cerco está fechando. Desde os atentados de 11 de Setembro que foram viabilizados e financiados através de mecanismos de lavagem de dinheiro aumenta cada vez mais as exigências dos governos em todo mundo para obter mais transparência, governança e conformidade. Organizações renomadas como por exemplo o banco Britânico HSBC tiveram que pagar multas bilionárias por não estarem adequados as regras de conformidade e governança esperadas. Para entender como essas mudanças afetam as empresas brasileiras, entrevistamos nesta edição o especialista em governança e compliance, Emerson Siécola de Mello.   

Qual são as tendências no setor de compliance e governança para 2015? 

Considerando os recentes escândalos corporativos divulgados por meio da mídia e a necessidade de adequação das organizações à legislação de prevenção a ilícitos, tais como a Lei 12.846/13, Lei Anticorrupção ou Lei da Empresa Limpa, e Lei 9613/98, que dispõe sobre os crimes de "lavagem" ou ocultação de bens, direitos e valores, bem como em relação às questões de conduta ética dos colaboradores e terceiros, as perspectivas e tendências no setor de compliance e governança são muito boas para 2015, pois as organizações e as empresas, de modo geral, devem trabalhar os pilares de sustentação dos seus sistemas de governança. 
As questões que envolvem compliance e governança são um caminho sem volta! As organizações e empresas que insistirem em seguir pela trilha da "cegueira voluntária" pagarão um preço alto pela não adequação, seja em relação ao seu ambiente interno, seja em relação aos seus relacionamentos com terceiros, representantes comerciais, parceiros de negócios etc. 

Os executivos de compliance & governança tem a autoridade e os recursos adequados para fazer seus trabalhos?

Esta pergunta é muito pertinente. De modo geral, os profissionais de compliance, salvo raras exceções, não tem a autoridade e os recursos adequados para executarem suas atividades. Tenho conversado com profissionais de vários segmentos de negócios e tenho percebido uma certa agonia quando falamos sobre este tema. Na maioria das vezes, as atividades de compliance e governança estão "misturadas" às atividades de áreas jurídicas, gestão de riscos, controles internos... são coisas completamente diferentes! Sabemos que a realidade de muitas empresas é cortar custos, enxugar daqui, diminuir o investimento em um determinado setor, mas se deve pensar compliance e governança a longo prazo, com visão estratégica. O profissional de compliance não pode ser confundido como um "faz de tudo". Ele precisa ter autonomia, reportar ao nível hierárquivo adequado e ter definido de forma clara o seu papel e suas atividades. 

Nossos clientes em grande parte, não conseguem entender os benefícios da estrutura de compliance & governança. Isso é algo pontual, ou é uma característica da empresa Brasileira?

Pergunto a você: os clientes sabem qual é a visão, missão e valores do seu negócio? Porque se eles não sabem, os seus colaboradores também não saberão. Isso é básico, é pré-escola do mundo corporativo! Na minha percepção é uma característica do empresariado brasileiro, cuja mentalidade é "se não estou obrigado a fazer, não vou fazer". É uma mentalidade curta e reflete em muito o pensamento cultural do brasileiro, ou seja, não há uma cultura em se trabalhar os aspectos preventivos. Imaginar que se algo der errado, estarei preparado para enfrentar as adversidades, as crises, responder adequadamente a um evento potencialmente negativo. 
Há também aquele olhar 360º: "O que o meu concorrente está fazendo? E o mercado? Ah, se eles não fazem, também não vou fazer." 
Uma das missões do profissional de compliance e governança é justamente mudar esse pensamento, mudar a cultura da organização. Demonstrar, no dia a dia das atividades o que se ganha, o que se agrega com a formalização de uma politica, de um procedimento ou com um treinamento em sala de aula. Converso com muito gente do mercado, de várias áreas e não é raro encontrar alguém que diga que nunca recebeu um treinamento sobre sua atividade, que não sabe ao certo qual é o seu papel no dia a dia da empresa, que não conhece as normas de conduta, do que se espera dele enquanto profissional. Esse é o nosso papel, demonstrar esse horizonte de possibilidades!    

Seria possível mensurar o retorno sobre investimento em projetos de compliance & governança?

O investimento em compliance e governança pode ser mensurado por meio de indicadores após as várias etapas de implementação de um projeto. Podemos iniciar fazendo algumas perguntas: Tenho políticas e procedimentos formalizados? Quanto custa um dia do meu negócio parado? Já fiz essa conta? Possuo planos de contingência e continuidade de negócios? Os colaboradores entendem o seu papel e o risco de suas atividades? Possuímos uma cultura de controles para a perenidade dos negócios? Se as respostas forem "não", é prudente pensar a respeito. Compliance e governança não é custo e sim investimento. Quando você trabalha em um ambiente onde há uma cultura voltada a controles, à prevenção de riscos e perdas, cria-se uma atmosfera de confiança recíproca entre todos dentro da organização. A partir do momento que se deixa de pagar indenizações por falhas operacionais ou fraudes ou quando os contratos estão devidamente cobertos por cláusulas que protejam de ações de terceiros mal intencionados ou desavisados, passa-se à possibilidade de mensurar o retorno desse tipo de investimento.        

Como é mensurado o sucesso ou até mesmo o avanço dentro do projeto de compliance & governança? 

Acredito que o sucesso de um programa de compliance e governança pode ser medido pela imagem que a organização tem junto ao mercado e seus stakeholders, incluindo o Poder Público e órgãos reguladores. Não falo só daquela coisa de "abraçar árvore", mas de aspectos de transparência, de a organização ser a primeira a assumir eventual falha ou erro, de antecipar-se e resolver o problema. Isso é cultura, atrai investidores, clientes, terceiro setor, a marca passa a ser lembrada como referência. Não existe receita pronta para compliance e governança. Cada organização é única e necessita desenvolver o seu próprio programa, de acordo com o seu ramo de atuação, os seus riscos e, sobretudo, onde se quer chegar. O sucesso é hoje!   


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