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Gestão de riscos na prática por Daniel Schnaider

Gestão de riscos na prática

Daniel Schnaider

Muito foi escrito sobre gestão de riscos. O tema ficou ainda mais interessante depois da crise financeira de 2007-2008 porque modelos, metologias e sistemas com investimentos milionários fracassaram em prever tanto o começo da crise como sua severidade.  


O especialista em riscos, Nissim N. Taleb, autor do livro Black Swan, explica que o erro generalizado é em tentar prever o começo da crise, o que em sua visão é improvável que funcione. Sua recomendação é que as empresas usem seus recursos para se preparem para crises e não em tentar identificar quando e como ela irá surgir.


Daniel Kahneman, vencedor do Prêmio Nobel de economia em 2002, já havia identificado em sua pesquisa, no final dos anos 70, que o cérebro humano tem dificuldades em processar riscos. Sendo assim, quando há duas ou mais escolhas a serem feitas com variáveis de risco (perda) envolvidas, a capacidade intelectual e racional está naturalmente comprometida.  


Entre tantas informações muitas vezes contraditórias sobre gestão de riscos, o empresário se pergunta o que implementar em suas empresas. Sugiro neste artigo, algumas das ações que tomamos em nossos clientes que trazem resultados extraordinários.


Três tipos de riscos

Primeiro crie um inventário de todos os tipos de riscos (Ex. Risco cambial, Inadimplência, etc). Caso estiver usando uma ferramenta como Excel, tenha uma coluna para identificar os riscos em 1 de 3 grupos.

  1. Gestão
    Significa que existe medidas de gestão em andamento para controlar o risco. Ex. Código de ética e conduta em desenvolvimento.

  2. Monitoramento
    É muito possível que a empresa não tenha os recursos disponíveis no momento para tratar de todos os tipos de risco, portanto, esses devem estar sobre monitoramento. Desta forma, ciclicamente, o risco é avaliado, e é mantido em monitoramento ou passa para gestão. O importante é que riscos não sejam esquecidos, o que infelizmente acontece na maioria das empresas.

  3. Não aplicável
    Neste item o importante é o bom senso. Claramente é possível fazer uma lista infinita de riscos praticamente irrelevantes para seu negócio. Sugiro que o foco seja em categorizar riscos aonde não haja consenso na empresa sobre sua relevância. Neste caso, não monitoramos o risco, mas mantemos na lista para uma avaliação anual. Muitas vezes as empresas confundem relevância com falta de conhecimento. Em outras palavras, marcam risco como não aplicáveis apenas porque não tem o conhecimento para lidar com o mesmo. É melhor que o mesmo seja registrado do que ser ignorado.


Conformidade e seus limites


Conforme Robert S. Kaplan e Anette Mikes ambos professores da universidade de Harvard, empresas tentam gerenciar riscos através de procedimentos criados na empresa.


Segundo eles, este método funciona bem para “riscos evitáveis” (Ex. Fraude interna, negligência, falta de energia, etc) mas não funcionaria bem para riscos estratégicos  ou riscos externos.


Riscos estratégicos seriam esses que são do interesse da empresa. Por exemplo, bancos concedem empréstimos e portanto tem risco de crédito. O banco eficiente sabe gerir melhor o risco de crédito.


Riscos externos são variados, desde riscos de leis aprovadas no congresso que vão contra o interesse da empresa, fatores macroeconômicos como mudança na taxa de juros e efeitos da natureza como chuva, terremotos, erupções vulcânicas, etc.


Riscos Estratégicos e Externos


A alguns anos estava prestando consultoria para uma grande empresa de energia. Realizei reunião com o seleto grupo de engenheiros para entender quais eram os riscos críticos que a empresa deveria gerir melhor.  


A sala estava muda. Momentos depois, um dos engenheiros levanta a mão, e começa a falar. “Somos profissionais, alguns com mais de 30 anos de experiência. A empresa tem recursos, funcionários capacitados, e obviamente se tivesse alguma exposição a risco, ela já seria tratada.”


Como de praxe, depois da reunião marquei reuniões individuais com cada engenheiro. A lista a exposição a riscos em ativos críticos da empresa parecia não acabar.


  • Perguntei a um dos engenheiros por que ele não se manifestava durante a reunião em grupo?

O mesmo respondeu que tinha 3 filhos para cuidar!


Esta estória se repete em versões variadas nas mais diferentes empresas brasileiras. Com base nela estendo minha lista de sugestões práticas e pragmáticas para gestão de riscos.

  • Tenha uma canal anônimo para que funcionários possam falar o que sabem

  • Providenciar regras de conduta que protejam funcionários que apontem erros críticos na operação

  • A comissão de risco deve ter representantes dos acionistas e não apenas do executivo

  • Faça uma pesquisa interna para verificar o grau em que os colaboradores se sentem confortáveis para comunicar problemas

  • Tenha uma comunicação interna transparente e profissional

  • Use consultores externos e especialistas pois eles não tem vícios na operação, trazem experiências de outros clientes e podem abrir o seus olhos

  • Repita anualmente


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