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Entrevista com Mario Sinato especialista no setor de celulose

Entrevista  SCAINews

Mario Sinato




Considerando sua longa experiência no mercado de papel e celulose, quais seriam as tendências para este setor no futuro próximo.

A indústria de papel e celulose está passando por um processo de transformação. Devido à digitalização e o fácil acesso da população a produtos de comunicação digital como computadores pessoais, smartphones e tablets que conectam o mundo em segundos, a demanda para estes tipos de papéis vem caindo mundialmente. As grandes empresas nacionais e internacionais, produtoras destes papéis estão reduzindo as suas capacidades através da venda de seus ativos ou até mesmo fechando suas fábricas devido ao alto custo operacional e declinio constante de suas margens de lucro. Com a enxurrada de preços muito baixos originados dos países asiáticos, o negócio vem se tornando insustentável.

Desta forma, a indústria vem inovando e se reinventando. A boa notícia para o setor é que a demanda por papéis para fins sanitários e confecção de embalagens vem crescendo continuamente puxada também pela forte tendência mundial de aumento da população. Estes produtos de papéis e cartões são derivados da celulose, são sustentáveis, recicláveis, originados de florestas renováveis e são amplamente demandados pela indústria de alimentos e bebidas, cosméticos, de higiene pessoal e muitos outros, até mesmo pela indústria química com a ajuda da biotecnologia e nanotecnologia.

Por esta razão, o setor está investindo de maneira significativa na produção de celulose de fibra curta, principalmente no Brasil e outros países da América do Sul devido ao baixo custo de produção e competitividade. Os investimentos já feitos e outros anunciados de empresas grandes do setor como Suzano, Klabin, Eldorado, Stora Enso são de ordem bilionária. Eles vão na contramão da maior parte de setores da economia doméstica.  


Olhando para dentro da empresa, quais são os desafios de gestão de uma empresa de papel e celulose, e quais em sua opinião são as particularidades nesta área.

Devido à queda de lucratividade e concorrência forte, a empresa de papel e celulose tem implementado grandes programas de redução de custo e aumento de eficiência operacional. Como se trata de uma indústria de alto capital intensivo e investimento pesado, ela deve fazer também uma gestão muito rígida de seus passivos e esforço contínuo para a redução de sua dívidas. Como o custo de produção é normalmente muito alto e as margens de lucro são atualmente baixas, o retorno do capital empregado é muito lento. A empresa precisa buscar mais eficiência em sua produtividade se inovando continuamente ter foco muito forte na implementação de sua estratégia e alcance dos resultados.

A respeito de uma de suas particularidades, com exceção de produtos de papel que se tornaram commodities, há uma gama muito variada de produtos que requerem alto conhecimento técnico. Pode-se citar como exemplos as embalagens de cartão para as diversas indústrias citadas acima, os papéis de segurança, produtos para higiene pessoal, fraldas descartáveis, absorventes, etc que requerem desenvolvimento do capítal humano dentro destas empresas, já que não há faculdades e/ou univerdades que abordem este tema. Isto faz com que a indústria invista forte em seus colaboradores de produção e de vendas.


O Sr. tem experiência na gestão tanto de empresas de médio porte como empresas de grande porte como Suzano. Quanto há de semelhança e diferença no trabalho diário com empresas de tamanho distinto?

No cotidiano de uma grande organização, a comunicação, a discussão de estratégia, a elaboração de metas e a tomada de decisões acontecem com linhas intermediárias de reporte já que pode haver vários níveis de hierárquia entre o topo e a base da pirâmide. As relações são normalmente mais formais. Por um lado, o planejamento estratégico e um plano de negócios mais estruturado estarão presentes nestas empresas já que o corpo de gestores é maior. Por outro lado, a tomada de decisões é mais lenta e burocrática. As decisões e riscos são compartilhados e a autonomia de um gestor é mais limitada. Pode-se evitar riscos desnecessários, mas pode-se também perder boas oportunidades. Outra questão é que a média gerência deve estar muito bem preparada para cascatear as informações para a base de uma forma eficaz e eficiente, caso contrário os colaboradores podem não se engajar o suficiente ou não terem o entendimento necessário para o cumprimento dos resultados e onde a empresa quer chegar.

Nas organizações de médio ou pequeno porte, a participação e o envolvimento dos colaboradores ocorre de maneira ativa o que resulta em mudanças imediatas e tomadas de decisões mais rápidas. A autonomia do gestor tende a ser maior e a tomada de decisão é compartilhada diretamente com os donos ou diretamente com os acionistas. O risco e a responsabilidade dos erros e acertos costumam ter um peso maior. Além disto, o gestor de uma empresa média deve ser capaz de lidar com inúmeras situações, ser mais participativo no cotidiano das operações, tratar desde negociações vitais para a empresa bem como estar presente em seus depósitos e no chão de fábrica.

Você teve a oportunidade de trabalhar com um dos maiores empresários que o Brasil já teve o Leon Feffer. O que aprendeu com ele?

Dentre os aprendizados que tive com o Sr. Leon Feffer, os que mais marcaram foram o seu forte espírito de liderança, a facilidade com que conquistava a admiração das pessoas da empresa por seus atos e ações. Era um grande exemplo para a sua família e para os seus funcionários. Os inspirava continuamente a ter paixão pelo faziam na empresa; demonstrava sempre muita auto-confiança e segurança em tudo o que fazia e em suas decisões. Era muito exigente na cobrança de resultados e nos convencia que trabalhávamos na melhor empresa do setor. Confiava, buscava tirar o melhor das suas pessoas e investia muito em seu capital humano. Um aprendizado muito importante que ele transmitia era, que em primeiro lugar está o trabalho, pois sem ele não existe família, dignidade e nem paz de espírito. Muito atencioso quando falávamos, era muito elegante ao discordar de algo e se pronunciava com muita clareza. Enfim um grande líder que enriqueceu muito minha vida profissional e pessoal.



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