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Entrevista com Amarildo Gonçalves

Entrevista com Amarildo Gonçalves 
especialista em contabilidade



1. A maior parte das empresas que conhecemos no Brasil tem algum problema com seu departamento contábil ou sua contabilidade externa. Esse problema ocorre pela complexidade da lei Brasileira ou por falta de qualidade por parte do contador brasileiro?

Pelas duas coisas. A maior complexidade tributária é um enorme desafio à vida dos profissionais. Mas de forma alguma deve ser motivo impeditivo para um resultado  de excelência entre as partes. 
Na formação acadêmica, o modelo multidisciplinar deve dar espaço a um "pensamento organizador que ultrapasse as  disciplinas ensinadas". Ao aproximar o foco na empresa, a visão holística deve  fazer parte da formação do profissional. Neste sentido, devem ser formados profissionais baseados na transdisciplinaridade.
Isso exigirá do profissional adicionar uma carga horário que some às atuais quatro a cinco mil horas igual quantidade para se chegar  nas dez mil horas necessárias. Após a formação, no mínimo duas horas de leitura diária devem fazer parte da vida deste profissional, para o resto de sua vida, caso contrário, em pouco tempo estará defasado e fora de contexto.
 Para isso é fundamental obter conhecimentos sobre toda a complexidade jurídica (Tributária, Trabalhista, Civil, etc.) e solidificar o conhecimento específico que é a contabilidade. A este conjunto deve ser somado o conhecimento da empresa na qual este profissional está inserido. Com este conjunto complexo, mas imprescindível, ganharão ambos, empresa e  profissional. Cria-se a possibilidade do empresário voltar à sua vocação de empreendedor, visualizar novas oportunidades, dentro do mesmo negócio ou noutro, e ganhar mais dinheiro.


2. As empresas de contabilidade são muitas vezes escolhidas com base com indicação de conhecidos. Não seria mais pertinente ter uma lista de critérios para avaliar a qualidade de um escritório contábil? Qual seriam esses critérios? 

Não podemos concordar com o principal atributo para a escolha de uma empresa de contabilidade, que é a Ética. 
A Ética, no sentido de honestidade , integridade, probidade, não pode nem deve ser considerada como um requisito de contratação. É nem pode, pois uma característica essencial, mas obrigatória do ser humano não pode e nem deve ser item qualitativo para escolha de um profissional, pois se é desta forma, estamos dizendo que a ética não é algo coletivo, mas individual e específico.
Devemos buscar nesta empresa (nos seus profissionais) as qualidades essenciais que possam, de forma decisiva, contribuir para o sucesso da empresa que a contrata. É na Gestão Financeira que a contabilidade deve se inserir de forma substancial para contribuir com o conhecimento específico para buscar a maximação dos resultados da empresa, tanto a curto quanto a longo prazos. Para isso temos que ter um conjunto de habilidades. É a experiência no seu sentido mais amplo, somando-se sólidos conhecimentos gerais e específicos. Na wikipedia há uma definição de habilidade segundo Voltaire que  "ter habilidade significa ser "mais do que capaz, mais do que instruído", pois mesmo aquele que houver lido e presenciado tudo sobre um determinado assunto, pode não ser capaz de reproduzir a ação na prática com êxito. Habilidade assim, seria um indicativo de capacidade, particularmente na produção de soluções para um problema específico,"¹ 

3. Muitas empresas escolhem o regime do lucro presumido por não ter um planejamento que identifique o lucro esperado. Empresas devem ter medo de optar pelo lucro real? Sua complexidade é um bicho de 7 cabeças?

A Legislação Tributária Atual, somada às novas propostas de um sistema único de apuração das contribuições PIS e  COFINS sob o formato da não-cumulatividade trará o realismo jurídico (existente no Código Civil) à prática contábil. Não haverá, num horizonte próximo, espaço para empresas que não tenham uma contabilidade sólida, sob pena de inviabilidade do próprio negócio. Para as empresas  que a partir de 2014, distribuem lucros maiores que a base presumida pela Legislação Fiscal, a contabilidade robusta  (Diário, Razão, Balancetes, Demonstrações e Balanços) já deve  ser entregue ao Fisco na  Forma Digital.  
A opção pela apuração do imposto de renda sob a sistemática do lucro real é a possibilidade da empresa bem preparada sob o ponto de vista tributário-financeiro, de optar pela situação mais vantajosa. Mas isso só se torna possível com a solidez das práticas contábeis, independentemente de estar sob um ou outro regime de apuração dos impostos sobre o lucro. Poder optar pressupõe estar preparado para a escolha. O mais preparado já está a frente dos concorrentes e próximo de lucros extraordinários.

4. Toda empresa média teve em algum momento optar por ter sua contabilidade interna ou tercerizar. Quais são os parâmetros que o empresário deve levar em conta ao tomar está decisão? 
Em essência, não há diferença nas opções, mas propostas distintas.
As empresas contratam pela necessidade de se obter habilidades essenciais à sobrevivência do negócio ou por simples cumprimento de obrigações? 

Se a proposta é o  processamento de dados e geração de informações para o cumprimento das obrigações fiscais, a escolha pela internalização é puramente uma desatualização das práticas  de contratação de serviços contábeis nos principais centros econômicos mundiais. Há mais de uma década, contadores indianos realizam as práticas contábeis de empresas americanas e inglesas. Claro que  a língua comum aproximou os continentes, mas o fundamental para esta escolha foi a forma de comunicação existente nas empresas do mundo todo: a informatização (digitalização de documentos que podem ser lidos simultaneamente, banco de dados acessíveis 24 horas por dia, comunicação instantânea via Skype, etc.), faz do ambiente indiano de trabalho a sala ao lado do diretor financeiro da empresa contratante.

Não visualizo um futuro longo no ambiente das empresas brasileiras a opção pela internalização e a obrigação de pagar por aluguéis, máquinas e softwares caros para realizar as mesmas operações que podem ser realizadas a quilômetros de distância (e ainda assim estar na sala ao lado) com amplas possibilidades de obter maior sucesso por ser focada exclusivamente neste objeto. 
Pelo aspecto preço, a proposta de internalização é desvantajosa. Se a contratação visa apenas o cumprimento da Agenda obrigatória. As grandes empresas gastam 9,21% do seu faturamento com gestão financeira incluindo aí obrigações fiscais, tributárias, trabalhistas, etc. a contabilidade em si, além das administrações de contas a pagar e a receber). As empresas de médio porte podem obter o mesmo resultado das grandes corporações gastando até menos da metade disto.

Mas temos ainda a questão das habilidades que devem, em determinados momentos ser somadas, às cabeças existentes na empresa para solucionar um desafio novo ou específico da empresa. Nesta hora, por quanto tempo uma empresa deve contratar esta(s) "nova(s) cabeça(s)"?

Não há como considerar realística que a  necessidade atual de aumentar a oferta por energia elétrica no Brasil possa ser satisfeita pela contratação por tempo indeterminado, por 220 horas/mês do senhor Tesla!

O valor intrínseco da genialidade do senhor Tesla deverá ser contratado, sim. Mas apenas pelo tempo necessário à resolução do problema localizado e específico. Posteriormente ele poderá ser fundamental para ajudar a desenvolver novas propostas, novos desafios para obtenção de novas fontes de lucro para a empresa. Mas apenas na medida exata das reais necessidades, sem desperdício de recursos.
Certa vez ouvi a seguinte estória corporativa: Perguntado se o motivo do entrevistado presidente de uma empresa ficar 14 horas por dia, todos os dias da semana, sentado na sua cadeira, era por necessidade de trabalho árduo e específico da sua função, ele respondeu que duas horas por dia bastavam para sua tarefas específicas; as demais 12 horas eram para ver se as pessoas estavam fazendo o que ele havia determinado! Doze horas de quase puro desperdício para uma cadeira ocupada a preço tão alto!

A terceirização não é para reduzir custos, embora esta possa ser uma possibilidade real vislumbrável no contexto. É para possibilitar a geração de mais valor e mais lucro para o negócio da empresa contratante. Realizar o dia-a-dia de forma ágil rápida e econômica e trazer novas habilidades para solução de problemas a curto e longo prazos.

5. Qual o futuro da contabilidade?

O futuro da contabilidade como a conhecemos, está com os dias contados, segundo estudo publicado por dois professores da prestigiosa Universidade Oxford.  De um total de 702 profissões, das mais diversas áreas do conhecimento humano, eles admitem que num horizonte de dez a vinte anos, a profissão do contador tradicional e atual, tem mais de 95% de probabilidade de ser extinta pela concorrência cada vez mais acirrada da informatização. Mas será que devemos nos curvar a esta previsão catastrófica que poderá dizimar a profissão de contador?   
É com base neste contexto de enormes desafios que devemos forjar esse novo profissional que é o Contador Holístico.
Só com o aumento da capacidade de soluções (o desenvolvimento pleno do nosso conjunto de habilidades) é que seremos necessários e importantes para as empresas e os negócios. Precisamos conhecer e aplicar todo o conteúdo proposto pela Governança Corporativa para superar a previsão realista de que concorrer com a máquina para processar dados é  uma guerra com final já conhecido.
Não estamos no universo para prever o futuro, mas para construí-lo!


    

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