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Se livre do peso em excesso - Vender ou fechar unidades pode salvar a empresa por Daniel Schnaider

Se livre do peso em excesso

Vender ou fechar unidades pode salvar a empresa

Eram anos de prosperidade, os negócios cresciam dois dígitos ao ano já por alguns anos consecutivos. O que a empresa botava para vender, vendia. A verdade que não conseguiamos nem atender toda demanda, e muitos negócios escapavam. Aumentavamos os preços e mesmo assim, o mercado comprava, como se estivéssemos vendendo ouro. A inadimplência era baixíssima, e risco era uma palavra estranha, afinal, como dizia meu sócio “Quem não arrisca não cresce”. E foi assim, que decidimos entrar em novos nichos, montamos outras empresas, compramos máquinas, contratamos, injetamos capital próprio no negócio. Os bancos nos procuravam, mas demos as costas; ora bolas, pra que pegar dinheiro a juros altíssimos, quando podemos financiar tudo com capital próprio.


Esta imaginária estória, não foi tão imaginária assim para muito dos empresários que conheci. O mercado virou, e agora a empresa tem excesso de capital imobilizado, funcionários, custo fixo, espaço de armazém, veiculos e estoque. Obviamente, a empresa tenta vender tudo que pode, mas não se tratando de problemas específicos da empresa, a economia como um todo está ruim, e nada é vendido. Difícil encontrar compradores, e os preços de venda não agradam. Se espera mas vai que alguém quer comprar os ativos, ou alugar o imóvel no preço de alguns anos atrás, mas a situação piora e o preço despenca.


Nisso o custo fixo vem corroendo as reservas, começa o atraso de pagamentos de tributos, e o desespero inviabiliza qualquer tentativa de pensar racionalmente. A opção de demitir os funcionários comprometeria ainda mais o caixa da empresa e é adiada, como se houvesse algum momento adequado para demitir.   


Dentro deste triste cenário que afeta milhões de empresas no Brasil e no mundo, empresários e executivos muitas vezes congelam diante da situação extrema. Quando tudo que tentam, apenas soma mais um fracasso que não muda o rumo da empresa a insegurança toma conta de forma generalizada.


Apesar de todo os stress que estão envolvidos, as decisões podem ser bem simples. O verdadeiro problema é que em geral falta coragem para sua execução. Pergunte, o que está verdadeiramente contribuindo para seu lucro imediato? Lembre-se, você está em estado de sobrevivência, hipóteses futuras de clientes que podem ou não realizar contratos imaginários devem ser deixados de fora. O que interessa é apenas o que é real e tangível. Sim, você abrirá mão de trabalho, e ativos que foram construindo com esforço árduo depois de muitos anos serão apenas uma memória. Mas isso não interessa mais. Se você “não largar o osso”, você poderá perder o pouco que lhe resta. O botão de “reset” vai ser apertado, e você terá um recomeço, voltando alguns anos na linha do tempo, se espera que mais maduro.


É bem possível que várias linha de negócio estão contribuindo pouco, nada, ou negativamente para a lucratividade de operação. Pouco, significa que o risco de manter o custo fixo, e o peso sobre a alavancagem da empresa com financiamento simplesmente não vale apena. Contribuição negativa ou nula com certeza devem ser eliminados o mais rápido possível.


Vender ou fechar deve ser julgado sobre o critério do tempo e sua influência através do custo fixo sobre o caixa da empresa. Se tiver algo verdadeiro e rápido, algo que pode reduzir um pouco o passivo, ou transferir-lo mesmo que em algumas situações sem que se tenha de fato transferência de dinheiro pode valer muito apena.


Existem muitas consultorias hoje que podem ajudar nesses procedimentos, e apesar que dentro de um cenário de redução de custos, contratar uma prestadora de serviços pareça contra-intuitivo, ainda é melhor do que fazer um erro que lhe vai custar muito mais. As empresas que sabem realizar turn-around, spin-off (separação de ativos), fechamento de unidades ou atividades de investment banking (a venda da unidade), em geral fazem o trabalho hoje, para receber parcelado durante um bom tempo, dando assim tempo para você se reorganizar, e sem que haja um grande peso no fluxo de caixa.


Bote data limite para o fechamento das unidades, ou seja, se não conseguir fechar um contrato de venda até determinada data, feche a unidade sem nenhum pudor. E se a oportunidade vingar meses depois, bem, sobre isso dizemos que sorte é estar no lugar certo na hora certa, e você com certeza não estava, mas se esperasse também não seria adequado, pois o benefício da venda teria sido comprometido pela influência do custo fixo.


Em determinadas situações, em que a empresa está pré-falimentar, a única forma segura de vender certos ativos, como unidades da empresa, filiais etc. dependendo da estrutura societária que foi usada é através de recuperação judicial. Se alguém alegar que a venda do ativo foi uma tentativa de fraude, por exemplo, tentando vender a parte boa da empresa para salva-la, enquanto a parte que fica é a ruim, onde será declarada a falência mais tarde, é possível que todo passível seja passado para a compradora, comprometendo a operação.  


De qualquer forma, não importa como você tente analisar, diagnosticar, avaliar, a solução é se livrar do peso excessivo. Depois que tiver realizado sua dieta empresarial, se conseguir sobreviver para mais uma rodada da montanha-russa econômica, pense bem antes de começar a comer em excesso; haja coração que aguente.



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