Imprensa‎ > ‎SCAINews‎ > ‎out2014‎ > ‎

Entrevista com Tulio Kahn - Sergurança Pública

Entrevista com Tulio Khan

especialista em segurança pública


O SCAI News conversou este mês com a Ph.D, Tulio Kahn, especialista em segurança pública. O tema da segurança pública é de extrema relevância para o mundo dos negócios. Ele compromete seriamente o sistema logístico do pais, inibe investimentos que vem de dentro e de fora, limita o potencial turístico e exige a alocação de recursos para a segurança privada. Não há melhor pessoa para esclarecer nossas dúvidas do que o sr. Kahn.

Existe uma forte presunção que políticas de segurança pública no nível estadual tendem a fracassar uma vez que as armas, drogas e outros contrabandos passam pelas fronteiras brasileiras com facilidade. Qual é seu ponto de vista?

Se fizermos uma análise das armas acauteladas na justiça, aquelas que foram apreendidas pela polícia porque estavam envolvidas em algum crime, verificaremos que mais de 80% delas são armas nacionais de baixo calibre: basicamente Taurus e Rossi calibre 32 e 38. Este é o perfil das armas envolvidas na maioria dos homicídios e roubos. Assim, fronteira é um problema apenas para armas mais sofisticadas, que alimentam grupos criminosos organizados, mas cujo volume é relativamente pequeno. Por outro lado, pesquisas sobre o DNA das drogas feitas pela polícia técnica de São Paulo revelam que estas são produzidas majoritariamente fora do país e um controle maior das fronteiras, inclusive estaduais, contribuiria para diminuir o fluxo de entrada. Minha posição, contudo, é que é preciso desestimular a demanda, pois se esta existe, a droga entra de um jeito ou de outro. O controle das fronteiras pode ser útil também para o controle de outros crimes, como roubo de veículos e carga e contrabando. Esta seria a maior contribuição para o sucesso de uma política de

Seria correto dizer que existe uma relação entre o sucesso de políticas de segurança pública e os gastos do setor privado em segurança?

O setor privado exerce um papel complementar mas relevante para a segurança pública. Ian Van Dijk, um criminólogo Holandês, argumenta que parte da responsabilidade para queda dos crimes patrimoniais na Europa na última década cabe a “responsive securization”, ou seja, ao uso mais intensivo dos equipamentos de proteção pela população em geral. Quanto mais o setor privado se protege, mais os recursos públicos podem ser alocados para outras áreas de maior risco. No agregado, todos ganham com a maior participação do setor privado. Estamos falando aqui não apenas dos investimentos das empresas mas dos gastos da população em geral com alarmes, câmeras de vídeo e outros equipamentos de prevenção que se tornaram mais acessíveis ao grande público.

Um dos grandes problemas das empresas brasileiras se refere a fraude e crimes dos próprios funcionários, terceirizados e fornecedores. Há dados confiáveis sobre este tema no Brasil? O que eles dizem?

Não existem dados confiáveis sobre o tema no Brasil e em todo o mundo as estimativas estão subnotificadas. Por isso a ONU (UNICRI) organizou durante um período o projeto ICBS, International Crime Busines Surveys, que perguntava a uma amostra de empresas de vários portes e de diversos países sobre a incidência e prevalência do fenômeno, modus operandi, prejuízos causados, etc. O Brasil fez apenas uma vez esta pesquisa, em 2002, organizada pela consultoria Brasiliano & Associados. Outras empresas de consultoria e segurança privada internacionais fazem levantamentos parecidos, como a Pinkerton, mas os dados não são públicos. Ainda falta no país, portanto, um projeto para estimar, em base nacional e permanente, a magnitude do problema.

É possível criar uma estratégia de segurança pública efetiva sem integrar o sistema de educação, melhorar o sistema judiciário e penitenciário?

Existem políticas isoladas bem sucedidas, como foi o caso da redução dos homicídios em São Paulo em 70% na última década, do qual participei como coordenador de análise e planejamento da SSP. Mas em longo prazo, é inviável pensar numa solução que não passe pela prevenção e funcionamento sistêmico de todo sistema de justiça criminal (polícia, ministério público, justiça, sistema prisional, etc.) Hoje esta integração inexiste até mesmo entre as polícias civil e militar e muito menos com as demais secretarias de Estado. Tampouco existe integração com as esferas Federal e Municipal. Para acelerar este processo de integração, é preciso repensar o modelo presente no art.144 da Constituição, que engessa iniciativas de integração. É preciso pensar numa nova engenharia institucional, como um Ministério da Segurança Pública atuante coordenando o processo de integração e secretaria estaduais e municipais dedicadas à prevenção criminal, com políticas públicas multisetoriais. Assim, por exemplo, um dos projetos que a literatura criminológica identifica como mais eficientes para a prevenção da criminalidade é um projeto da área da saúde onde profissionais visitam por longos períodos e alguma frequência as residências de mães solteiras que engravidaram na adolescência, desde antes do parto, monitorando os cuidados elementares com higiene, saúde e alimentação da criança. Estamos a anos luz de iniciativas como estas no Brasil.

 

Do ponto de vista de segurança. Quais seriam os 3 melhores e piores estados para uma empresa de logística operar no Brasil?

Do ponto de vista exclusivo da segurança seria desejável operar fora do eixo São Paulo, Rio e Minas, que concentram o grosso do roubo de carga do país. Mas é lógico que é justamente nestes estados que estão grande parte dos produtores e consumidores, de modo que isto implicaria em custos de transporte e operacionais que poderiam não compensar os prejuízos com a segurança. Assim, meu conselho é procurar o localização ideal do ponto de vista da distribuição, armazenamento, etc. e criar um bom setor de inteligência para minimizar os riscos na operação.

Comments