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Oferta pública inicial por Daniel Schnaider

Oferta pública inicial

Há alguns anos estava prestando consultoria para uma rede de supermercados com uma receita anual de alguns bilhões de Reais e poucos milhares de funcionários. Estávamos conversando de estratégia e como garantir o crescimento sustentável da empresa ao longo do tempo. Os sócios-diretores da empresa já estavam se aproximando da sua aposentadoria, e queriam estudar um formato que perpetuasse a empresa.


Depois de estudar a empresa, sugeri que tivessem uma meta de 5 anos para realizar um IPO. O ambiente caloroso e simpático se tornou um pouco hostil. É difícil saber como esta informação foi interpretada pelos sócios que imediatamente se fecharam. Que associação veio a sua cabeças?


Hoje, com perspectiva de alguns anos posso até me arriscar a criar uma análise do que aconteceu naquele dia. A empresa lucrava apenas através de sonegação, ou seja a operação não era viável dentro de um modelo lícito. Este era exatamente meu ponto ao recomendar o IPO.


As demandas e requerimentos do IPO exigem um grau de gestão de riscos, compliance e governança relativamente alto, obviamente para proteger os investidores. As empresa que pretender chegar neste objeto, teriam que se estruturar conforme exigem as regras do jogo, o novo jogo.


Obviamente, nenhum consultor tem bola de cristal. Cinco anos depois, poderia ocorrer uma profunda crise que deixaria inviável o projeto de IPO. Ao meu ver, o que importa é a jornada e a direção, mais que o objetivo em sí. Uma empresa que tem alto grau de GRC (Governance, Risk and Compliance - sigla em Inglês), tem mais facilidade de conseguir capital de diversas fontes e mais barato - ponto final.


Se o IPO viesse a acontecer em 6, 7 anos ou nunca acontecesse, é menos importante do que o processo de estar apto a ele. Uma contabilidade organizada que atende os padrões internacionais, hierarquias claras e estruturadas, um conselho administrativo onde decisões estratégicas são debatidas, controles internos, estrutura societária clara que garanta os interesses das famílias, regularização fiscal e trabalhista.


A estratégia implícita da empresa de que as autoridades não “quebrariam” empresas que dão milhares de lugares de emprego para gente humilde, me parece um tanto simplista. Não seria este o primeiro ou último caso de empresários que se convencem que estão passando colossos para a próxima geração, enquanto os filhos estão de fato herdando uma série infinita de problemas trabalhistas, fiscais e criminais sem que tiveram o mínimo de preparo para lidar com eles ou que estejam totalmente conscientes do que estão recebendo de “herança”.  


No mundo, o mercado de empresas cotadas em bolsa vem caindo. Em 1998 quando o Brasil perdia para a França em meio das convulsões de Ronaldo fenômeno, o EUA, o maior mercado de IPOs do planeta, tinha 7.562 empresas listadas. Conforme dados da Wilshire 5000, em 30 de junho de 2015 o índice continha apenas 3.691 empresas.


Em geral, as mudanças no mercado público de ofertas vem acontecendo por algumas razões. Primeiramente, a vantagem derivada da economia de escala, ou seja, empresas que querem se tornar cada vez maiores, vem impulsionando o mercado global de fusões e aquisições a patamares sem precedentes. Em 1990 houve um total de 11,500 fusões e aquisições registradas representando um total de 2% do PIB global. Em 2008 este número subiu para 30.000, representando 3% conforme a revista The Economist.


Crédito: EY


As incertezas globais também não vem ajudando. As posições do candidato republicano à presidência do EUA contra a globalização, o caos británico do Brexit, o que parece ser a saudade de Vladimir Putin aos tempos da União Soviética e a delicada economia europeia e a desaceleração da China. Aqui no Brasil, tivemos um processo de impeachmente longo, sofrido e incerto demais.


Além disso mais e mais empresas vêm optando pelo uso de fundos de investimento no lugar de IPO. A Uber, com avaliação acima de 50 bilhões de dólares é um exemplo. Algumas razões podem sustentar tal decisão:

  • A complexidade das leis referente ao processo como um todo

  • Seu alto custo

  • A pressão por resultados trimestrais no lugar de uma visão de longo prazo

  • Saber e querer lidar constantemente com críticas e a exposição na  mídia

  • Exigências exageradas de governança e compliance

  • A sensação de perda de controle

  • Volatilidade do mercado


Mas não podemos esquecer que o IPO ainda pode ser uma forma de acesso a capital barato e uma excelente forma de perpetuar a empresa quando você quer se aposentar. Infelizmente não tive a oportunidade de apresentar por completo minha visão.


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