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Entrevista com Abla Akkari



O SCAI News conversou este mês com a Ph.D em engenharia civil, Abla Akkari, especialista em planejamento da empresa Akkari & Costa Consultoria em Planejamento, que responde a perguntas sobre sua área de especialidade. Diferentes estudos dizem que entre 70%-80% dos projetos fracassam. Erros, negligência, e falta de competência no planejamento é citado como umas das principais causas para o fracasso sistemático em tantos projetos. 

  • Qual é sua visão a respeito da cultura de planejamento em empresas Brasileiras? 

A cultura de  implementação do processo de planejamento tem sido mudada ao logo dos anos, pois as empresas estão sempre necessitando tomar decisão de forma mais e mais rápida, com margens de lucro mais apertadas e de forma transparente com seus clientes e fornecedores.

A minha empresa iniciou suas atividades em 1999 com 2 projetos e hoje acumula um total de 610, sendo que 95 em andamento. Acho que isso prova não só a difusão e implementação do PCP (Planejamento e controle de Projetos) como a necessidade de ter informações de prazo, custo e risco mais rápidas com acompanhamento ao longo da execução do empreendimento.

Esse número ainda é muito pequeno em relação ao número de empreendimentos do mercado, mas é uma grande evolução e está aumentando a cada ano.

  • A presidenta Dilma, falou na TV que em obras de engenharia "só não atrasa quem não faz". Seria esta colocação uma realidade de campanha ou é possível fazer grandes  projetos de engenharia dentro do prazo e orçamento previamente planejado?
Ao ler essa frase fiquei extremamente preocupada sobre a quem está entregue nosso pais. Todo projeto necessita de gerenciamento, não somente de prazo, mais também de outras áreas de conhecimento, tais como: custo, risco, comunicação, aquisição, recursos humanos, qualidade, escopo e integração. Pois os Desvios ocorrem em todas estas áreas e precisamos tomar permanentemente ações preventivas e corretivas focadas nos nossos objetivos para que possamos atingi-los no final do ciclo de vida de cada projeto. 

Todo projeto apresentará desvios, positivos ou negativos, ainda mais no Brasil onde nosso grande problema é alteração de escopo, pois os empreendimentos geralmente iniciam sem ter projetos executivos e com o desenvolvimento desses projetos o escopo tende a sofrer mudanças, muitas vezes acentuadas. 

Toda alteração de escopo tem impacto direto, ao menos no prazo e no custo do projeto. , Isto demonstra a extrema necessidade de se desenvolver o Baseline (Planejamento de Referência) do projeto, afim de que possamos comparar alterações, verificar desvios e tomar as devidas medidas corretivas e/ou preventivas. Esta deve ser a postura básica de um gerente de projeto. E não a de aguardar o término do projeto para dizer que não cumpriu o planejado, ou, apenas próximo ao seu final, verificar que não poderá cumprir as metas estabelecidas.

Dados bibliográficos (Ricardino, 2007) mostram que ao elaborar o planejamento e orçamento de  obras pesadas do qual só se possui um projeto esquemático, seu prazo e custo sofrem desvios de 20 a 25%. Veja-se o quadro abaixo.

Outro problema que encontramos quando, por exemplo, trabalhamos em arbitragem, é o mal entendimento de clausulas contratuais. Que também é um problema de definição do escopo, matriz de responsabilidades e análise de riscos. Os riscos são inerentes a qualquer empreendimento, desde projetos de caráter pessoal até grandes empreendimentos. As empresas colocam milhões em um projeto e não possuem um mapeamento de riscos, não fazem análise qualitativa e muito menos têm plano de respostas os casos em que os eventos de risco se manifestem. Somente rezam para que eles não impactem negativamente em seus resultados. Em resumo, há muito risco e pouco santo para cuidar desses problemas.

  • Entre os clientes da SCAI Group ouvimos duas justificativas de forma bem sistemática para não planejar. "Planejar é tentar prever o futuro, e já que não /da para ver o futuro, não é necessário planejar" a segunda se refere ao governo "Nossos governos são imprevisíveis e portanto não vale apena planejar". Qual é sua posição referente a essas justificativas?
Como já expliquei na questão anterior, planejamos para tomar ação corretiva e principalmente preventiva. A frase que eu detesto escutar quando chego em uma obra é: meu sentimento diz que estamos no prazo, ou... que iremos atrasar. Eu não tive disciplina de sentimento no meu curso de engenharia. Tive 4 cadeira de cálculo, 5 de física, portanto meu sentimento eu uso com a minha família e pessoas que amo e não em obras. Prazo é produto de sequenciamento de atividades, duração dessas atividades e recursos necessário para cumprir essas durações, ou seja, matemática, rede lógica. É a meta que, no início, por menos informações que eu tenha, eu vou perseguir. Simular cenários futuros faz parte do processo de planejamento. Já na elaboração do baseline devemos considerar todos os problemas que possam vir a acontecer e verificar, no mínimo, seus impactos no fluxo de caixa, prazo e eventual redução da taxa de retorno. Isto exige tempo, exige experiência, exige conhecimento do projeto. Mas ninguém quer "perder" esse tempo. Como consequência perde-se dinheiro ao longo da execução, pois não se pensou na melhor solução caso esses problemas se efetivem. Sem baseline, sem metas, não há controle. O problema é que se eu não tenho meta eu não tenho como comparar o que eu deveria ter feito, com o que eu realmente fiz a cada momento. Não tenho como aferir se eu fiz a mais o a menos, faço apenas tudo que aparecer, ou o que é mais fácil, ou o que é mais rápido ou, muitas vezes, o que é mais caro. É como um avião sem um plano de voo, onde cada tripulante decide após a decolagem que quer ir para um local; ou seja, pode parar em qualquer lugar, passar por uma cidade mais perto sem parar e depois ter que voltar; como consequência, pode até entregar cada um no seu destino, mas a um custo maior (mais combustível), prazo maior e o pior... risco altíssimo (bater e cair).
  • Qual é o estágio, critérios e características para que uma empresa vire seu cliente potencial?
Uma empresa para ser meu cliente potencial precisaria atender aos seguintes critérios: ter vontade de mudar; entender a necessidade de controlar e ter domínio dos processos de gerenciamento (escopo, prazo, qualidade, custo, risco, aquisição, recursos humanos, comunicações e integração); ter postura proativa na tomada de decisões e não ficar olhando os indicadores de forma passiva. Sendo assim, qualquer empresa é muito bem vinda e as que não fazem isso prefiro fora do meu caminho, é o dinheiro que não faço questão de ganhar.

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